sábado, 10 de dezembro de 2011

O Baloiço

Era um vulgar sábado de manhã e, como sempre, o cansaço de uma semana de aulas tinha feito das suas. Quando acordei já não era particularmente cedo.
Como já era hábito ao sábado de manhã depois de acordar, ia tomar o pequeno-almoço a casa de minha avó que morava a dois passos de minha casa. Foi nesse dia, percorrendo aquele caminho que já me era tão familiar, que dei comigo a olhar para aquele sobreiro, que deveria ser o maior e mais imponente que alguma vez vira em toda a minha vida! Não o fiquei a olhar por ele ser novo para mim, pois estava habituado a vê-lo todos os dias. Fiquei a observá-lo, sim porque achei que lhe faltava qualquer coisa. Passados alguns minutos a olhá-lo, voltei a caminhar em direção à casa da minha avó e, é claro, em direção ao meu pequeno-almoço. Enquanto estive sentado à mesa voltei a pensar no sobreiro e em como lhe faltava algo. Foi, então que me lembrei de que aquele sobreiro daria um ótimo baloiço. Corri à procura do meu avô para lhe pedir uma corda e um pneu velho que tinha lembrança de ter visto na arrecadação dele. Depois de recolher tudo o que precisava, deitei mão ao trabalho e, pouco depois, ali estava o baloiço! Apressei-me a experimentá-lo e logo fiquei encantado! Fazia-me sentir nas nuvens. Foi assim que passei o resto do meu dia, a baloiçar de um lado para o outro.
Só depois de o cair da noite e da minha mãe me ter chamado algumas vezes para regressar a casa, é que tive deixei aquele meu companheiro de brincadeiras, mas com a promessa de que, na manhã seguinte, voltaria a baloiçar naquele pneu que, apesar se toscamente amarrado, me tinha dado tanta alegria naquele dia.

Diogo Reis; 10º B

Um Dia Atarefado

Acordei, com o barulho da porta a bater, o meu pai acabava de sair de casa. Era sábado, e isso significava que era dia de forno aceso, pão fresco e quentinho, e de bolos de leite. Levantei-me apressada, vesti-me, comi e lá fui eu, aos saltinhos para a casa da minha avó.
Os sábados eram os meus dias preferidos. Não tinha escola, podia fazer tudo o que queria e brincar sempre que me apetecia. Quando cheguei à casa da minha avó, ela já tinha a porta aberta e estava, como habitualmente, de avental branco, a amassar o pão. A massa dos bolos já estava pronta. Eu não resisti e tirei um bocadinho, apenas para provar. Seguiram-se mais umas quantas provas até que a minha avó repete o que diz sempre:

-Margarida, não comas mais que te faz mal à barriga. Espera, logo comes mais depois de sair do forno.
Eu nem escutava. Por muito que ela me avisasse, a massa sabia-me melhor crua. Cozida não tinha o mesmo sabor.

Depois de ter a massa do pão amassada, e dela já ter estado em repouso, era preciso dividi-la em pequenos pedaços de forma oval que, depois de irem ao forno, ficavam com a forma e a cor do pão. À minha responsabilidade, ficava fazer os pães com linguiça e eu adorava fazê-los. Além de me sentir útil, aprendia e, mais uma vez contra as advertências da minha avó, comia algumas rodelas de linguiça.
Quando finalmente estava tudo feito, já nem me apetecia comer. Estava cansada. Os sábados eram dias muito atarefados. Hoje, são passados a ver televisão ou na internet. Tenho saudades desses dias da minha infância. Desses dias em que tinha sempre algo de novo para fazer.

Margarida Gonçalves; nº23;10ºB

No PInhal

Quando era mais pequenina, até ir para a creche, ficava com os meus avós paternos, pois os meus pais tinham que ir trabalhar. Todo esse tempo que passei com eles fez com que criássemos uma ligação especial e, mesmo depois de eu entrar na creche aos três anos, era para a casa deles que, nas férias, a minha mãe, todas as manhãs, me levava.
A casa da minha avó é num monte, um pouco afastado do Cercal, bem perto de um pinhal. De todos os dias que passei atrás da minha avó, pois eu não a largava por um bocadinho, guardo uma memória, de entre muitas outras, que nunca vou esquecer: os passeios que eu dava com a minha avó pelo pinhal. Era tão bom sentir o cheiro daquele sítio… Seguia sempre atrás dos passos que ela dava e ia sempre muito atenta a tudo e quando, por curiosidade, tentava arrancar qualquer coisa que me picava, corria para mais perto dela e agarrava a sua mão como se ela fosse a minha protetora. E era!
Nesse pinhal, os pinheiros eram altos, as outras árvores tinham os caules cobertos de eras e o chão estava quase todo atapetado de fetos e de outras plantas que variavam consoante a altura do ano e que só não tapavam o caminho por onde nós andávamos. Era quase como se entrássemos noutro mundo. Perto do Natal, crescia uma planta, muito parecida com o azevinho, que a minha avó apanhava sempre para colocar numa jarra. Ainda hoje não sei ao certo o verdadeiro nome dessa planta, mas que a minha avó chamava-a de “gilbarbeiro”. Por esta altura, era também tempo de escolhermos o pinheiro mais bonito e perfeito para fazer a árvore de Natal.
Noutras alturas do ano, havia sempre uma flor ou uma planta que fosse bonita e que cheirasse bem para colher e levar para casa ou, então deliciávamo-nos apenas com os medronhos que eu adorava comer e que, por isso, a minha avó se dedicava a apanhar e a escolher os mais madurinhos e doces
Foram horas e tardes que decorreram sem que eu desse pelo tempo passar. Hoje guardo esses momentos na minha memória e revejo-os sempre que posso, pois sei que, com muita pena minha, esses tempos não vão mais voltar.
Agora, embora vá menos para a casa da minha avó, quando vou com mais tempo, tento sempre convencê-la a irmos ao pinhal.
Já nada acontece como naqueles tempos, eu cresci, tudo está diferente e a magia daquele lugar foi-se perdendo, ficando apenas as lembranças e as histórias, que a minha avó, ao longo do passeio, me vai contando, de quando eu era pequenina. Outras vezes, conta-me também histórias de tempos muito mais antigos, quando ela tinha a minha idade, que eu escuto com imenso prazer e de sorriso no rosto.


Daniela Silva; 10ºB; nº11

A Vida e a Morte

Há cerca de 8 anos atrás, numa manhã como todas as outras (ao menos, era isso que eu pensava), acordei. Deixei-me ficar na cama a reunir forças para enfrentar o frio de mais uma manhã do mês de outubro.
Passado algum tempo, apercebi-me de alguma agitação no exterior do meu quarto. Luzes acesas, pessoas a falar… Na inocência dos meus quase oito anos, nunca me passou pela cabeça o que realmente se tinha passado. A minha avó, a mãe da minha mãe há dois anos que lhe tinha sido diagnosticado um tumor maligno no cérebro. Aos poucos, viria a perder as suas faculdades. Recordo-me especialmente de um dia em que eu e a minha mãe a fomos buscar à paragem de autocarro e, quando ela entra no carro e não consegue falar, eu perguntei-lhe o que se passara, ao que ela me respondeu que os médicos lhe tinham feito uma “coisa com uma broca” na língua. Nesse momento, isto bastou para satisfazer a minha curiosidade. Mas o que é certo, é que ela nunca mais proferiu uma única palavra.
Agora, olhando para trás, percebo que foi nesse dia, o dia em que a minha avó morreu, o dia em que tiraram do mundo uma grande mulher, trabalhadora, esforçada, que era capaz de passar uma noite inteira perto de quem (pessoa ou animal) precisasse dela… foi esse o dia em que eu me apercebi do que era realmente a vida, pois fui confrontada com uma morte injusta, que ocorreu demasiado cedo, e que teve graves consequências no seio da nossa família.
Mas, foi nesse momento, também, que me apercebi da grande mulher que a minha mãe foi e é. Uma mulher que teve uma primeira filha, eu, com uma fenda lábio-palatina; de quem a avó se suicidou dois anos depois; que teve um segundo filho com um sopro no coração… e a quem a mãe morreu muito nova e quando mais era precisa. Mas, apesar de tudo isto sempre lutou e continua e lutar, levando um dia de cada vez e, tal como a mãe dela, a fazer tudo por todos.
Não cheguei a ter a honra de conhecer a minha avó, mas tive o enorme privilégio de conhecer a maravilhosa pessoa que é a milha mãe. Posso dizer que, quando me dizem que sou muito parecida com a minha mãe, sinto um enorme orgulho.
Todas as pequenas conquistas que já fiz e todas as que espero fazer no futuro, foram graças a elas e por elas, por estas duas grandes mulheres que, na sua pequenez, já conseguiram conquistar o seu lugar neste mundo.

Ana Marques; 10º B

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Inquietação

De que serve a glória,
Quando ninguém a respeita?
Para quê ficar na memória,
Se ninguém a aceita?

Como acreditar na verdade,
Se ela não existe?
E também na igualdade,
Que em mentira consiste

Se glória é coragem,
Quem a adquiriu?
Antes se quer ter boa imagem
A enfrentar o desafio.

A futilidade neste mundo,
É o que mais existe.
Coração mudo,
Com silêncio assiste.

Assiste sem nada dizer,
Para quê falar?
Há muitos que não lhes falta que dizer,
Mas fazer?! Isso, ninguém vai arriscar.

Mas que mundo este em que vivo,
Sem humildade ou amor.
Assim sobrevivo,
Neste mundo sem cor.



Ana Marques: 10º B

Perfume de Infância

Como habitualmente, naquele dia, acordei mais cedo do que todos cá em casa. Logo de seguida, fui para a cozinha, onde já estavam os meus avós que me encheram de mimos.
O pequeno-almoço era sempre em família e muito divertido.
Neste dia muito especial, passámos quase todo o dia na rua a tratar do jardim, apanhando ervas, cortando árvores, varrendo, regando e brincando muito.
Nesse dia, eu e a minha irmã inventámos um perfume só nosso. Fazíamos assim: várias flores que cheiravam bem, todas juntas e esmagadas que depois metíamos num frasquinho com água. Houve perfume para toda a gente. Foi muito divertido.
No final do dia, a minha mãe levou-me para casa, para me dar o banho da noite, muito bom para relaxar. Eu adorei, pois estava muito cansado.
Guardo na minha memória este e outros momentos felizes da minha infância, que, por vezes, me trazem uma certa melancolia, por não os poder reviver.

Gabriel Fernandes; nº16; 10ºB

Bisavó

Quando tinha os meus quatro ou cinco anos de idade, estava sempre desejando que chegasse o fim-de-semana, principalmente o domingo, para poder ir a casa dos meus avós. Adorava passar com eles um dia inteiro; divertia-me imenso com a minha bisavó que vivia com os meus avós, pois já tinha alguma idade para viver sozinha.
Assim que chegava domingo de manhã, acordava bem cedo. A minha mãe vestia-me, e logo depois, eu ia para junto do meu pai e pedia-lhe que me fosse levar. Ao vê-los, corria até eles com o meu cabelo a saltitar, pendurava-me ao pescoço deles e abraçava-os até me soltarem dos seus braços. Logo de seguida, ia para a rua, porque eles viviam num monte. Então, apreciava ao pormenor todos os animais, enquanto os meus avós tratavam deles. Por vezes, tinham de ralhar comigo, porque eu queria mexer em tudo o que via, e me despertava alguma curiosidade.
Gostava muito de brincar com algumas louças velhas que a minha avó me dava para eu estar entretida Brincava no muro que existia na parte da frente da casa. Era aí que a minha bisavó estava quase sempre sentada, encostada ao seu “bordão” como ela lhe chamava, à espera de alguns raios de sol que a aquecessem. Enquanto eu brincava, sorria-lhe quando a olhava e ela observava muito atenta tudo o que eu fazia.
Eu, com a idade que tinha ainda era muito inocente e não tinha a noção que ela precisava do seu “bordão” para dar os seus passinhos. Às vezes, roubava-lho e, depois, começava numa correria sem parar. Ela, coitada, ficava sentada a olhar para mim e a pedir-me que lho devolvesse, mas eu nunca o queria fazer. Que maldade!
Passado tempo, aquela velhinha adoeceu e todas estas correrias com o seu “bordão” deixaram de existir. Na altura, nem me apercebia do que estava a acontecer, mas sempre que chegava a casa dos meus avós sentia a sua falta. Não a via sentada no lugar habitual de todos os dias e encontrava-a deitada na sua cama.
Foram bons os momentos que passei com a minha bisavó, apesar de ela não achar muita graça às minhas brincadeiras, porque já se sentia muito cansada e só queria estar sossegada no seu cantinho. Mas ria-se comigo. A minha bisavó acabou por falecer e eu senti muito a sua falta sempre que ia visitar os meus avós.
Hoje, sempre que me lembro dos momentos passados com ela, que foram muitos, é como se os estivesse a viver novamente na minha memória. Infelizmente, as pessoas “partem”, mas o sentimento por elas permanece no coração e a saudade aparece.

Filipa Teixeira; Nº13; 10ºB

A Viagem

Encontro-me sentada no autocarro, pronta para viajar entre Santiago do Cacém e Sines. Viajar não será a palavra mais adequada para descrever o percurso, já que este não é muito longo. Portanto, apenas percorrerei um caminho entre duas cidades muito próximas.
Ao meu lado, a minha tia fala com o motorista sobre um qualquer assunto que, agora, não me vem à memória. Desloco-me com ela todos os fins-de-semana, para
Sines, desde o dia em que ela se mudou para lá.
O autocarro iniciou o seu caminho, pronto para mais uma jornada de “pára, arranca…pára, arranca…”, isto é, o recolher e o deixar passageiros durante a viagem.
Revejo a minha face no vidro do autocarro. Este separa o quente e aconchegado calor humano, do frio e escuro inverno das noites de dezembro. A noite caiu já há algum tempo, tempo suficiente para que apareça uma branca e cintilante lua no céu!
A lua faz com que eu viaje entre sonhos e planetas muito distantes. Desta vez, encontrei um planeta, onde as pessoas viviam principalmente junto ao mar. Residiam em simples casas, construídas a partir de palha. Coabitavam, felizes, com os seus familiares e amigos. Convidaram-me me para passear num enorme barco construído há mais de duas décadas, e eu aceitei. O barco era enorme e cheio de esconderijos. Entre gargalhadas e brincadeiras, uma tempestade abateu - se sobre nós, o céu estava carregado de nuvens escuras que não aparentavam nada de bom. Tudo se alterou, o vento soprava cada vez mais forte, as velas abanavam de um lado para o outro, pareciam rasgar-se a qualquer momento, mas o primeiro a fraquejar foi o mastro; parecia um palito quando cedeu às forças do vento! Começámos a cambalear, e a tropeçar uns nos outros…até que um homem caiu ao mar! A bóia foi lançada, a força exercida por todos para resgatar o náufrago era quase inútil contra a força do mar...
De repente, já não há tempestade, nem náufrago no mar à espera de ser salvo! Fui acordada pelo parar brusco do autocarro. A única coisa que vejo é, este já parado, junto à rodoviária. Acordei no momento mas importante do meu sonho. Agora não posso voltar; a única coisa que tenho a fazer é levantar-me, pegar na bagagem, despedir-me do motorista e ir-me embora.
Um simples percurso entre duas cidades, resultou numa tempestade, e num náufrago por salvar!É assim que eu recordo um dos episódios da minha infância. Eu sentada num simples banco de autocarro, enquanto viajo entre terras e mares desconhecidos. A viagem mais simples, tornar-se numa das aventuras mais espectaculares de sempre.

Mafalda Pereira, 10ºB nº22

Quando eu era menina...

Muitas são as memórias que retenho da minha infância, que me fazem sorrir ou chorar quando fecho os olhos e abro o meu precioso baú das recordações. No entanto, sem dúvida alguma, que as que surgem com um maior destaque são aquelas que incluem as visitas aos meus avós.
O meu pequeno cachorro corria à nossa frente, farejando incessantemente. Eu caminhava ao lado do meu avô em direcção ao gado. Umas flores amarelas já minhas conhecidas surgiam à minha frente e acabava sempre por ceder ao impulso de as colher. Já levava um molho bem grande quando dei conta. “Metade para a avó, metade para a mãe”, lembro-me de pensar.
O meu avô assobiou e a cadela pastora apressou-se a juntar algumas vacas que se afastavam e voltou para junto dele. Sentámo-nos numa valeta seca e o meu avô recostou-se para trás, tirando a boina e colocando-a sobre os olhos a tapar o sol. Recostei-me também e fiquei a observar as nuvens que formavam formas no céu.
Nós não falávamos muito. Na verdade, julgo que não tivéssemos muito a dizer um ao outro. Ainda assim, eu sabia que ele me amava. Sempre pronto a defender-me fosse qual fosse o disparate que eu fizesse e diga-se de passagem que eu fazia muitos. Sempre a ajudar-me a realizar qualquer objectivo. A colocar-me os gatinhos nos braços quando eu queria brincar com eles. A erguer-me quando queria dar palha a uma das suas vacas e não tinha nem altura para chegar à manjedoura. O meu avô era assim, simples. Não ligava a política, nem a futebol, mas sabia tudo e mais alguma coisa sobre agricultura e sobre as dificuldades da vida. Quando lhe falavam em crise lembro-me vivamente dele sorrir e responder com sabedoria: “Não falem do que não sabem, porque nunca estivemos tão bem como agora.”.
Dei por mim a soltar uma pequena gargalhada e a mirá-lo com a boina ainda na cara. Levantei-me, sacudi a terra das calças e disse adeus ao meu avô.
Corri até à minha avó que me esperava com um alguidar de água nas mãos e acompanhei-a até casa. Pousou o alguidar em cima da mesa e começou a descascar batatas.
Fui buscar o meu pequeno tacho, que havia anos ela me tinha comprado e estendi a mão à espera da primeira batata. A minha avó passou-me uma pequena batata e cortei-a para o tacho. Era assim a minha brincadeira de faz de conta, e, embora, agora pareça uma parvoíce, naquela época eu deliciava-me a cortar legumes para dentro dum tacho e a mexê-los como se estivesse realmente a cozinhar.
Quando me recordo da minha infância, dou-me conta que passou rápido. A minha infância desapareceu e, depois os meus avós seguiram-lhe o rasto. Mas as memórias ficaram e essas jamais se poderão perder.


Joana Costa; 10º B

Memórias passadas, não esquecidas

Cabelinhos aos cachos, e sorrisinho maroto, estas eram as minhas principais características de criança. Ainda trago na minha memória algumas lembranças desta fase da minha vida.
Quando chegava a hora do almoço ou do jantar, fome era o que nunca tinha. Naquele dia tal como muitos outros, corria dos meus pais que tentavam, a todo o custo, colocar-me um colher de grão com arroz na boca. Inventavam as histórias mais criativas e fascinantes que uma criança poderia ouvir, e por sua vez, as mais cativantes, claro. No entanto, tudo isso parecia não resultar comigo, que teimava sempre em levar a minha ideia avante. Por cada colher que minha mãe pegava dizia “Ritinha, olha o avião!”, “Ritinha, uma colher para a avó, ela está doentinha1”, e a “Ritinha” desviava a cara, lembrava-se de contar alguma história, ou simplesmente fugia. Digamos que não era uma criança propriamente de “boa boca”, mas sim um “pisco”, como diziam. As tentativas que, na maioria das vezes, eram falhadas, de me tentar convencer a “abrir a boca” não ficavam apenas pelas histórias, pois quando as histórias não resultavam compareciam os bonecos. Era uma criança meiga, no entanto, muito traquina e teimosa. Nesse mesmo dia no qual o almoço era grão com arroz, a minha mãe foi comigo até ao jardim perto de minha casa, e tudo isto como forma de me distrair com algo e de, naquele momento de distracção, conseguir que comesse mais um colher de grão. Esta fazia referência às mais lindas flores que no jardim havia, aos passarinhos, aos cãezinhos das vizinhas, mas como é óbvio nada disso resultou nesse dia. Após estas tentativas, a minha mãe fartou-se de insistir como sempre insistia, e levou-me novamente para casa. Fê-lo, então na esperança que eu, ao jantar, comesse melhor. No entanto, como sempre essa ideia não foi das melhores, pois como é óbvio persisti em nada comer!
Enfim, eu era uma criança dócil, mas quando o assunto se c pendia para o lado das refeições, fugia delas a “sete pés”, e digamos que, por vezes, ainda o faço.


Rita Fernandes; 10º B

A Guitarra



Certo dia, a minha mãe comprou-me uma guitarra acústica. Fiquei muito contente e, nesse dia, não parei de tocar.
Na noite, estava eu contente a tocar “mal”, quando os meus pais se foram deitar (eles, nesse tempo, iam-se sempre deitar bem tarde) ouviram-me a tocar e ficaram admirados de eu ainda estar acordado àquelas horas da manhã. Por isso, ralharam comigo.
No dia seguinte, acordei bem cedo, mais cedo do que todos lá em casa (o meu pai costuma acordar às 6 e meia para ir para o trabalho), peguei na guitarra e comecei a tocar. Então, os meus pais apressaram-se a ir ao meu quarto para me repreenderem., Eu tinha acordado todos lá em casa com aquela barulheira horrível. Como castigo, os meus pais tiraram-me a viola o resto do dia. Eu amuei e fiz beicinho, mas sem resultado.
Mais tarde a umas horas mais “apropriadas”, liguei a televisão, mudei para o canal dos desenhos animados e pus-me a ver televisão até a minha mãe me vir dar a roupa para vestir para, depois, ir almoçar.
Vesti-me e almocei. Mal acabei de almoçar, fui ter com a minha mãe para lhe pedir que me devolvesse a guitarra. Então, ela disse-me não, pois eu estava de castigo. Ora, mas eu não desisti e continuei a chateá-la até que ela acabou por ceder. Eh eh que peste que eu era! Já com a minha querida guitarra nas mãos, fui para a rua e pus-me a tocar, toquei sem parar até me cansar.
Mais tarde já farto de tocar, comecei e brincar com a minha nova guitarra. Imaginei que ela era uma espécie de arma e que tinha vários inimigos para derrotar para passar de nível. As minhas brincadeiras da altura eram sempre fortemente influenciadas pelos jogos e pelos desenhos animados que via. E swiiiiiip e swooooop e vuuuuum e lá ia eu derrotando os inimigos, até que a guitarra se escapa das minhas mãos e caiu no chão. Partiu-se em dois bocados. Mesmo com ela partida não parei a minha brincadeira; continuei a fingir que tinha ganho uma nova arma. Quando se fez noite e entrei em casa com a guitarra feita em duas, a minha mãe gritou:
-LEEEEEEEANDRO o que e que fizeste? – e apontou para a guitarra partida. Eu respondi:
-Deixei-a cair enquanto brincava com ela e partiu-se.
- Mas a guitarra não é para se brincar, é para tocares.
A minha mãe ralhou comigo a noite inteira e pôs-me de castigo, de novo. Eu não podia jogar, nem ver televisão durante um mês. É claro que eu tentei a minha típica estratégia do beicinho e de chateá-la. Contudo, desta vez não resultou e fiquei mesmo sem jogar, nem ver televisão durante um mês inteirinho!
Mas isto não aconteceu só com a guitarra, tudo o que era brinquedo ou servisse para as minhas brincadeiras, ao fim de alguns dias acabava ou partido ou com alguma peça a faltar-lhes. Era por isso que algumas vassouras não tinham cabo.
Eu era uma peste; ninguém tinha mão em mim. Só um belo par de açoites e que me acalmava um bocado.
Foi assim a minha infância até ganhar juízo. Juízo? Será que ganhei mesmo algum?

Leandro Luz; nº21; 10ºB

Uma tarde inesperada

Já há algum tempo atrás quando ainda era verão, acordei e a minha mãe já tinha o meu pequeno-almoço preparado. Disse-me para me despachar e vestir alguma coisa. Eu assim o fiz sem saber onde a minha mãe estava a pensar ir. Ela preparou o saco como se fosse para ir para a praia. De seguida, fomos para o carro. Até chegar ao carro, não lhe perguntei onde íamos porque, naquela altura, eu não gostava de ir à praia. Entrámos no carro e eu perguntei baixinho:

- Onde vamos, mãe? Ela sorriu e respondeu:


- Vamos a Beja ter com os tios.


Fiquei muito contente, já não os via há muito tempo. Durante a viagem, a minha mãe explicou-me que eles tinham comprado uma casa numa aldeia nos arredores de Beja. A viagem foi rápida; nem dei pelo tempo passar… Quando chegámos já era hora de almoço e fiquei logo surpreso, pois a aldeia e era mesmo pequena e a casa dos meus tios era a maior da aldeia. O caminho até lá era difícil; as estradas eram estreitas e a casa ficava mesmo no sítio mais alto da aldeia. Era uma casa muito grande com um jardim lindíssimo à volta da piscina. Almoçámos todos e eu já estava até preparado para ir para a piscina, mas tive de esperar para fazer a digestão. Enquanto esperava, vim um filme de ação com um actor muito bom. Quando o filme acabou, vesti os calções e dei logo um mergulho. Lembro-me bem: a água estava um gelo. Passei o tempo todo em cima de um castelo insuflável a imaginar os guerreiros do filme a tentarem invadir o meu castelo e, algumas vezes, caia dentro de água. Esta foi uma tarde em grande. Fiquei com pena de não poder ficar para jantar, pois fomos logo embora. Durante o caminho para a minha casa, vim a dormir, já que estava cansando de nadar e de dar os pulos naquele divertido castelo insuflável.


Agora vocês já sabem o que aconteceu da última vez que estive com os meus tios. Foi um dia muito bem passado.


César Baião; 10ºB;Nº8

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A minha primeira viagem de avião

Naquele verão, ainda de madrugada, vi as estrelas e parti. Parti para Lisboa.
Nas poucas horas em que estive na cama, pouco dormi, estava ansiosa por ir andar naquele pássaro gigante com motores nas asas.
Não via a hora de chegar ao aeroporto. Mas, por fim, lá chegámos. Era enorme, nunca tinha visto nada assim!
Numa mão, uma boneca, com a outra puxava orgulhosamente a minha mala.
- Cabo Verde, está ali! – dizia o meu pai enquanto apontava para o painel de partidas.
Estava encantada... Fizemos o check-in e lá foram as nossas malas. Depois passámos por uma máquina que apitava, se tivéssemos algum objeto de metal. E quando eu passei, apitou, mas não me assustei. Era apenas o meu cinto.
Fui, a correr, para uma janela que nos dava o panorama de uma parte da cidade de Lisboa, dos aviões a aterrar e a descolar... Ainda era noite e todas aquelas luzes me fascinavam, estava ansiosa.
Finalmente, chegou a hora de embarcar. Entrei no avião e exclamei:
- É grande!
Levantámos voo, que sensação! Já bem lá em cima, o sol começou a nascer e, com a inocência dos meus três anos, comecei a imaginar desenhos nas nuvens:
- Uma borboleta! - dizia para a minha mãe.
- Um dragão! - dizia para o meu pai, quando os raios de sol incidiam nas nuvens.
Sentia-me como um pássaro livre, a sobrevoar a imensidão dos oceanos.
Ainda hoje recordo esse dia, a cada viagem regresso à ingenuidade dos meus três anos...

Catarina Vicente; nº 7; 10º B

Querida Avó!

Numa certa manha, muito antes do sol nascer já eu estava acordada, pois gostava do frio da manhã e de ver o nascer do sol. Depois do nascer do sol, a minha avó chamava-me.
- Ó Tiana, anda cá a avó! (Tiana era como a minha avó me tratava, era a maneira de ela ser carinhosa comigo).
Quando ela me chamava, eu tinha de ir logo, se não ela ficava chateada. Ao chegar ao pé da minha avó, ela disse-me:
-Senta-te filha, que é para tomares o pequeno-almoço. Come tudo.
A minha avó nunca queria que eu ficasse com fome. Nunca tivemos muito naquela altura, mas nunca me faltou nada.
Eu não posso dizer que tive uma infância normal, pois não a tive. Mas lembro-me de quando a minha avó me sentava no colo dela, ao pé do lume e me contava histórias antigas, e eu ficava encantada, e pensava: “ Será que um dia também serei grande e poderei ser assim tão corajosa quanto a minha avó?”
Esse dia foi óptimo; brinquei o dia inteiro, ouvi as histórias de minha avó, andei de bicicleta e fui dar um passeio com o meu avô. Fui a uma barragem, o que foi muito divertido. Aí, respirei o ar puro da natureza e, como de costume, atirei pedras para a água, para ouvir o barrulho que elas faziam ao bater na superfície espelhada.
Contudo, quando cheguei a casa tive um sobressalto - a minha avó estava desmaiada. Eu não sabia o que fazer. O meu avô foi logo chamar a ambulância para a minha avó ir para o hospital. Um dia que tinha começado tão bem ia acabar daquela maneira, tão mal.
Eu era uma criança e estava sempre com a minha avó e nessa altura a única coisa que me apetecia era chorar devido à falta que ela me fazia. E foi o que fiz. Escondi-me de todos e de tudo e limitei-me a chorar a falta dela.
E assim foi em lágrimas e grande tristeza que acabou um dos meus dias de infância.


Cristiana Quirino; Nº9 ; 10ºB

Uma manhã diferente




Acordei numa fria manhã de primavera. No entanto, não passava de uma manhã como todas as outras, fria mas solarenga, habitual na primavera alvaladense.
Era apenas um rapaz que pouco do mundo conhecia, era um rapaz jovem, com 8 anos.
Nesse dia, saí de casa para ir para a escola; estava no terceiro ano e, como já era habitual, nesse dia encontrei-me com o meu colega e amigo Frederico no caminho para a escola. Chegámos à escola sem nenhum contratempo. Foi quando lá chegámos que aconteceu o inesperado, ou seja, absolutamente nada. Entrámos calmamente para a aula e sentámo-nos confortavelmente nos nossos lugares habituais. A professora que até já estava presente na sala, deu início à aula como sempre dava, ordenando-nos que escrevêssemos, no meu caso, “Francisco Miguel Correia Fernandes, Alvalade-Sado” e depois a data, da qual já não me recordo. A meio desta aula, batem à porta da nossa sala. Achámos estranho, pois a única altura em que tal era habitual era quando a higienista oral ia à escola, algo que tínhamos a certeza que não era o caso, pois se fosse teríamos sido avisados previamente. Quem batia à porta era a auxiliar de educação que chamou a professora para ir ver uma criatura que, pelas grandes portas da escola, tinha entrado e que se encontrava encostado à porta da nossa sala de aula e não arredava pé, ou melhor, pata. Eu que estava completamente alheio da situação apercebi-me de alguns colegas meus a interrogarem-se “Francisco aquele não é o teu cão?”. E não é que era mesmo. Parece que o cão pulou a vedação e seguiu o meu rasto até à escola. Como tínhamos uma professora muito compreensiva e eu prometi que o cão não faria as suas necessidades dentro da sala de aula, ela permitiu que o cão permanecesse na sala durante o resto da manhã. A princípio, o meu cão estava muito irrequieto e “viajou” por toda sala como procurasse algo. Por fim, conseguiu sentar-se debaixo da minha carteira.
Ouviu-se o toque para que pudéssemos sair para o intervalo. Como em todos os intervalos, desafiámos a turma do quarto ano para um jogo de bola e como em todos os intervalos, ganhámos. Quanto ao meu cão, ele lá passou todo o intervalo fechado na sala, coitado!
Voltámos para a sala e nada de importante aconteceu até que chegou a hora de saída. Era quarta-feira e, por isso, não tínhamos aulas da parte da tarde. Saí com a intenção de regressar a casa, mas o meu cão recusava-se a fazê-lo, de maneira que tive que levá-lo ao colo. Como tinha uma blusa de malha, fiquei com a blusa cheia de pêlos do cão. Quando cheguei a casa de minha avó levei um grande sermão por causa da quantidade absurda de pêlos que trazia na blusa.
Portanto, posso dizer que aquele cão, que já não se senta ao pé de mim, que já não está entre nós, conseguiu transformar um dia como os outros num dia que nunca esquecerei.

Francisco Fernandes
Nº 14; 10ºB

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Boneca da MInha Infância

Naquela tarde, já ao pôr do sol, estava eu e a minha irmã a brincar no jardim quando chegou a minha avó. Ela trazia um estranho saco de plástico na mão. Logo, eu perguntei-lhe:
- Avó, o que trazes nesse saco?
- Já verás! – disse ela.
Fui de imediato para dentro com a minha irmã, atrás de minha avó, para ver o que ela trazia de tão misterioso naquele saco.
Enquanto lavava as mãos para, depois ir jantar, ouvi a minha mãe:
-Vá, despachem-se que a avó tem que ir se embora e quer dar-lhes uma coisa.
Mal, a minha mãe disse aquilo, eu corri para a sala para ver o que era.
-Isto trouxe-me a tia Margarida; é um presente de natal um pouco atrasado – disse, então, a avó.
Realmente já vinha atrasado, estávamos no final de Janeiro. Mas como a tia era de longe, era assim que acontecia todos os anos.
Assim que a minha avó me deu o presente, eu comecei a rasgá-lo muito rapidamente, pois estava muito curiosa.
Quando, por fim, terminei de o abrir, fiquei tão feliz que comecei aos saltos de alegria.
Era uma coisa que eu há tanto tempo pedia à minha mãe e ela sempre me dizia:
-Tens ali muitos brinquedos.
Eu ficava tão triste com o que a minha mãe me dizia que ia logo para o quarto. Ela mais tarde ia lá para me consolar e eu voltava a ficar bem. Era sempre assim quando eu me lembrava daquela boneca que tinha visto na montra da loja perto da minha escola.
Finalmente, ali tinha a boneca que tanto queria; era uma boneca com um lindo vestido cor-de-rosa e um cabelo castanho tão bonito. Sempre que olhava para a boneca imaginava-me com o vestido dela, parecia uma princesa.
Agora, passados anos, quando olho para aquela boneca lembro-me do dia em que a recebi, da cara de felicidade com que fiquei naquele momento.
Foi o melhor dia de minha infância.

Alexandra Candeias; 10º B

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Distúrbio I


Assim é a vida,
Carregada de confusão,
Arrumada em prateleiras inexistentes…
Imaginadas…

Ideias dispersas,
Promessas por cumprir e… esquecidas…
Verdades e mentiras que se baralham,
Certezas e incertezas certamente incertas

Assim é a vida…
Como uma estante imaginada,
La Biblioteque en Feu, Vieira da Silva
Uma imaginação que se confunde com a realidade…

Assim é… A vida…
Muitas vezes baralhando as emoções com bens materiais,
Um misto de falsidade e ignorância e imaginação… fértil…
Cadeiras que são membros, livros que são cérebros, escadas que são…
Ossos, talvez… divisórias quebradas…

Divisórias quebradas,
Que unem a verdade à mentira,
A realidade à ficção,
E é nesta “biblioteca infernal”
Que mesmo não sendo por mal,

Vivemos nesta enorme confusão...



A pintura de Vieira da Silva, La Biblioteque en Feu, é um misto de sensações; desperta em quem a vê, a curiosidade de tentar perceber mais e mais sobre ela…
É nesta enorme confusão, formada por divisórias, prateleiras, livros, vida inexistentes que o publico se perde, tentando perceber o que realmente significa, tentando aperceber-se da mensagem que o quadro tenta transmitir, e toda esta é tão simples…
A nossa vida é uma enorme confusão, feita de verdades e mentiras, de ilusões e desilusões, de imaginação e realidade… É nesta enorme confusão que vivemos, todos os dias tentando perceber o verdadeiro significado da nossa existência, não sobrando tempo para conseguirmos perceber uma obra de arte como esta…
Daí a qualidade do quadro, não vale a pena tentar perceber… Tal como a vida… Deve ser vivido e admirado…
Vivemos nesta enorme confusão…

João Pedro Rocha; 12º D

sábado, 19 de fevereiro de 2011

As Meninas

Paula Rego ;The Vivian Girls as Windmills, 1984


Este quadro é de Paula Rego uma pintora portuguesa que nos últimos tempos tem vindo a ser reconhecida por todos nós. Penso que este reconhecimento é bastante importante para o nosso país, porque a arte, no nosso país, devia ser mais valorizada tendo em conta que temos grandes artistas tão pouco valorizados muito embora estes pudessem enriquecer mais Portugal.
A razão pela qual escolhi um quadro de Paula Rego para dele falar foi o facto dos quadros da autora serem um pouco infantis à primeira vista e, ao mesmo tempo, retratarem a sua realidade.
Ora, neste quadro, a autora queria nos dar a ideia de desassossego, pois as meninas fazem estragos, contrariando a forma como se deveriam comportar… quebrando, com prazer e maldosamente, a melhor loiça da mãe.
Creio que o medo, os fantasmas e a agitação que se vive nos quadros deste período tenham sido uma preferência da autora, pois estas sensações estão marcadas em todos os seus quadros ao longo de um período da sua vida.

Ana Margarida Martins; 12ºC

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Separação

Helena Almeida, Separação, 1976

Olho para a fotografia de Helena Almeida e consegui identificar logo o grão perfeito que só a fotografia analógica tem. Toda a fotografia a filme tem uma essência inexplicável, boas tonalidades e, acima de tudo, muito trabalho por parte do fotógrafo. Com a evolução (para pior) da fotografia, já não há bons fotógrafos como havia antigamente. O grande Henri Cartier-Bresson foi um exemplo de um bom fotógrafo pois as suas fotografias tinham sentimento e originalidade. Agora, com a evolução do analógico para o digital, toda a essência original da fotografia e de fotografar acabou! Esta já não revoluciona as Artes Visuais como revolucionou na primeira metade do século XIX e já não há a surpresa e curiosidade de acabar um rolo e de o revelar com vários processos diferentes para sabermos se o nosso trabalho ficou ou não como queríamos. E é isso que me faz ficar triste e a pensar.


Com as máquinas digitais ultra-compactas e ultra-baratas, a fotografia passou a ser banal, não tem qualquer significado. Qualquer indivíduo com uma máquina tira uma fotografia, manipula-a e pensa que fez um bom trabalho mas, na verdade, não passa de uma imitação de qualquer fotografia que já viu e, ao estar excessivamente manipulada, a fotografia distancia-se muito da versão original e volta a não significar absolutamente NADA!


Vou continuar a fotografar em analógico, a estragar filmes e a tentar de novo, a gastar dinheiro para fotografias em papel e não as deixar ficar no computador para algum dia se perderem.


Ao fotografar em analógico, sinto-me a evoluir e não a regredir como os dependentes do digital…


Manuel Gamito; 12º D






Anjo

Helena Almeida, Tela Habitada 1977

Sempre o mesmo local, sempre à mesma hora, sempre a mesma visão. Um anjo? Não o sei. Talvez fosse apenas um espectro de luz. Fosse o que fosse, gostava de a observar…
Pura, por ali deambulava, frágil, tão frágil, que sempre imaginei que se lhe tocasse, desfazer-se-ia em mil borboletas, alvas como ela. Deambulava e cumprimentava as nuvens e sorria ao vento, e à chuva, quando a havia, falava com doçura.
Nunca soube quem ela era, alguns diziam-na louca, outros que era uma criança aprisionada num corpo de mulher, talvez. Mas, para mim, ela era simplesmente sonhadora, uma alma refém do seu próprio mundo; incompreendida pelos demais; o reflexo da perfeição. E ela lá estava, dia após dia, e eu, sentado num banco, observava-a, estudando todos os seus movimentos, desenhando todos os traços do seu rosto na minha mente, onde, sem me aperceber, ficariam gravados para sempre.
Nunca soube, e ainda agora não sei dizer que emoção me tomava quando a via, e mesmo que tentasse não conseguiria defini-la, mas nesses momentos sentia-me bem. E essa sensação esteve presente na minha vida ao longo de vários anos. Todos os dias, me dirigia àquele lugar mágico, onde a magia tinha forma humana.
Até que um dia, ela não apareceu.
Esperei minutos, horas… nada. Voltei no dia seguinte, e no outro e no outro, mas dela nem sinal. Não perdia, porém, a esperança de tornar a vê-la; tentei procurá-la, mas não sabia onde ou como. Perguntei, então, a amigos e conhecidos se sabiam do seu paradeiro.
Vim a saber uma semana mais tarde que o meu anjo subira ao Céu.

Margarida Andrade; 12º D

sábado, 12 de fevereiro de 2011


Amadeo de Souza-Cardoso é um pintor modernista. Foi ele, um dos principais nomes, a trazer para Portugal este tipo de arte.
A entrada da pintura modernista em Portugal não teve grande sucesso, chegando mesmo a ser criticada e ridicularizada, pois este tipo de arte veio mostrar, ao mundo, uma pintura de um grande erotismo e naturalidade.
Como tal, as obras deste pintor caracterizam-se muito pelo cubismo e pelo expressionismo. Ele apresenta bastantes paisagens exóticas, com desenhos cubistas que transmitem algum mistério e, por outro lado, alguma emoção.
Esta obra, a meu ver, simboliza, tanto pelo seu nome, como pelo tipo de pintura que é, a entrada do modernismo em Portugal, pois Amadeo de Souza-Cardoso acumulou só nesta obra muitos dos elementos da arte moderna. Acumula assim, elementos geométricos, com linhas encurvadas e muito coloridas que traduzem o cubismo e que nos conduzem a uma acção bastante dinâmica. Apresenta também, nesta obra a palavra “entrada”, instrumentos musicais e instrumentos eléctricos, pois é daí que concluo que o pintor tentou, com esta obra, introduzir e mostrar ao mundo o que era a arte moderna. Apresenta elementos estranhos e pouco usuais na arte, desse tempo… É, sem dúvida, um modernista.
Ana Silva; 12º C

Olha e Sente!

La Biblioteque en Feu, Vieira da Silva
Olha !
Olhaste? Viste bem ? Que viste?
Um monte de quadrados e riscos parecendo nada, não é?
Mas esse teu nada é tanto…
La bibliothèque en feu.
Mas isto não parece muito uma biblioteca, nem sei o que parece.
Aproximo-me…
Vejo livros, um vão de escadas, datas, pequenos quadrados parecendo divisões de uma casa…e as cores, lindas cores! Não sei nomeá-las… quanto mais pormenores tento ver menos vejo, tudo me foge ao pestanejar, tudo me foge ao respirar.
É tão lindo. Sei que é. Não sei o que é, mas sei que é lindo. Olhar e nada ver. Não ver, mas sentir! E sentir é o mais importante. Sinto a brisa fresca do Outono a cumprimentar a minha cara a folha de uma árvore a segurar na minha mão, e até o quente do Verão a aquecer o meu corpo… Sentir é o mais importante. Sentir!


Débora Paulino; 12º D
Fernando Pessoa , por Almada Negreiros
Observo atentamente o retrato de Fernando Pessoa, um ser angustiado que se desdobrou nos heterónimos, retratando os outros "eus" escondidos. Seria louco? Não! Foi um homem corajoso ao mostrar que, numa vida, se podem viver várias e todas elas de maneiras diferentes.
Morreu ainda cedo mas viveu intensamente, sofregamente. Mas viveu! E passou para o papel tudo aquilo que sentia, com a noção de que não era um ser apenas… era também Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, entre muitos outros. E todos eles eram um só: Fernando Pessoa… que sempre assumiu viver cercado de um mundo fictício. Talvez fosse mais fácil viver assim, acompanhado de seres fictícios. Seria uma melhor forma de encarar a solidão que habita a alma dos poetas, a inquietação que os leva ao desespero… Pergunto eu: não seremos todos nós um pouco assim? Acredito que sim, mas… temos vergonha de reconhecer que nos sentimos inquietos e que escrevemos o que nos vai na alma. Seria vergonhoso admitir perante todos os que nos rodeiam que escrevemos lamechices…
Ninguém se pode comparar a Pessoa mas que escrevemos lamechices e nos sentimos bem, lá isso é verdade! Quer queiramos, quer não… temos sentimentos. Sentimos ira, revolta, inquietação, angústia, medo, amor… Contudo, ninguém assume o que sente. Talvez seja por estarmos mais preocupados com a parte exterior do que com os nossos sentimentos.
Fernando Pessoa inspira-me e faz mostrar o melhor que há em mim, no meu “eu” interior. Basta-me olhar para esta imagem: uma inquietação calma, um olhar saudosista de ser: “ o menino da sua mãe”.

Maria Granado; 12ºD

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Arte de Sentir

Amadeo de Souza-Cardoso

Já repararam que a arte pode ser uma simples gargalhada? Mas… como é que se transmite isso para uma tela? Como é que se transmite essa sensação, esse ruído, esse sentimento? Será possível?
Muitas das vezes, os artistas confrontam-se com estas e outras questões. Imaginam, reflectem. Por vezes, o difícil é fazer com que o observador, desvende o verdadeiro mistério de um quadro. É certo que cada pessoa, tem uma maneira de o ver, uma maneira de o interpretar. Ora, saber ver e pensar, a meu ver, já é arte! Arte não é apenas ser profissional a desenhar, não é ser um excelente pintor. Arte é saber transmitir sentimentos e emoções, é ter ideias e saber partilhar de forma correcta essas ideias. Numa tela…
O quadro do qual eu vou falar, é do pintor Amadeu de Souza-Cardoso que foi um pintor português percursor da Arte Moderna.
Olhei para o quadro dele, e a primeira reacção que tive foi a de um simples sorriso. E porquê? Não sei! O plano principal que eu observo neste quadro é o de um violino, que me leva até à música. Logo, a música faz parte de mim, faz-me pensar em bons momentos.
Como planos secundários vejo, no meio de tanta confusão, um morango. O que é que terá pensado este artista para pintar, ali, aquele singelo morango?! Nem ele próprio talvez o saiba! Fui um impulso. Foi uma cor que ele quis introduzir… E uma quarta e uma mulher?
Só pelo facto de este pintor me ter feito pensar sobre o que poderia transmitir este quadro, já me aconteceu Arte! Pois, num variado conjunto de cores, linhas, formas, interrogações, abstraccionismo, expressões, está lá representada Arte. A arte que eu também vivi.
Afinal de contas o que é Arte? Muito sucintamente… É o que cada um de nós quiser! Basta saber sentir.
Ana Trindade; 12º D

Orquestra com morango

Amadeo de Souza-Cardoso

Ontem, dia do meu 18º aniversário, entrei numa grande aventura para me despedir da minha infância, não perdida, mas finalmente terminada. Sim, agora sou adulta, sou livre e farei tudo o que me apetecer. E foi este pensamento que me levou até Paris, a grande cidade-luz, para ver um concerto de música clássica de que nunca pensei vir a gostar.
Tudo começou com provocações por parte do meu progenitor, que eu,” sua filha, era uma rebelde, uma ignorante sem cultura, sem noção das coisas do mundo”, aquele mundo que o envolve mas não me envolve a mim, nem é o meu. Certo é que me meti num comboio, rodeada de pessoas estranhas, acompanhada pelos meus botões e, claro, por uma grande amiga, pois não me aventuraria sozinha, não me atrevia a tanto. É que eu também sinto aquele sintoma horrível da adrenalina e do desafio, o medo, como uma pessoa completamente normal que não sou.
O concerto teve a duração exacta de duas incríveis horas. Para mim, tudo aquilo foi estranho. Digo-te que gostei e nem sei por que raio me atrevo a dizer-te que gostei de tal coisa, mas de facto gostei, talvez por ser diferente, talvez por saber que, afinal estou à altura dos desafios do meu pai e que sou muito melhor do que ele pensa. Não sei! Mas sei bem do que sou capaz e agora sinto-me orgulhosa de mim própria. Assim que acabar esta viagem cansativa de regresso, assim que sair desta caixa que desliza numa espécie de corrimão terrestre, não hesitarei em mostrar-lhe as provas e os testemunhos da minha aventura. Tenho a certeza que o meu pai ficará de certa forma orgulhoso de mim e mudará a sua opinião. Então, ver-me-á finalmente como a sua filha adulta e culta. Uma mulher de dezoito anos que até gosta de música clássica, de morangos bem maduros a assomar por entre a orquestra.



Catarina Sabino; 12º C

Caos e Amor

Amadeo de Souza-Cardoso
A multiplicidade de cores, de padrões e de fragmentos de imagens deixa-me baralhada. Faz-me sentir dividida, faz-me prestar atenção e captar o mais ínfimo dos pormenores, estimulando a minha mente para a beleza desta perfeita confusão. Talvez sim, talvez não, que tenha sido por tudo isto, esta a tela, a que mais me marcou.
Amadeo Souza-Cardoso, sendo um pintor expressionista, pinta de acordo com as suas emoções e sensações, das quais, tenho a certeza, muitas delas representam alegria, expressas por todos os elementos ligados ao amor. Há alegria devido ao uso excessivo de cores fortes. Contudo, outras representam revolta, por este pintor ter sido um ser incompreendido, gerando, então, o abstracto e a confusão.
Ao observar esta obra deparei-me com o facto de ter de repartir o meu olhar e a minha atenção por todos os cantos do quadro, pois todos eles me transmitiam múltiplas sensações. Consegui até rever, nesta confusão, a confusão das emoções da minha vida; toda ela expressa neste conjunto de cores e formas. Vejo o amor, expresso nas flores ao centro da obra, o amor proibido, expresso pelas diferentes partes de um corpo feminino. A desordem, expressa nas inúmeras cores utilizadas. Vejo, agora, a mais forte de todas as mensagens: aquela que é transmitida pelos espelhos, a verdadeira introspecção; o olharmos para dentro de nós mesmos, até no meio do caos e da confusão.
Na junção de todos estes pequenos fragmentos, Amadeo de Souza-Cardoso, dá a cada um de nós a liberdade de absorver desta obra a interpretação que mais nos estimule. Sinto-me, assim, livre no caos e no amor!
Beatriz Lourenço; 12ºC

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

História em redor de um quadro


Certo dia, em pleno século XX, decidi passar uma tarde sentado num café e apenas observar. Na universidade, inscrevi-me na cadeira de História. Estava a estudar a arte e cultura e, por isso, segui o conselho do professor para que observássemos a nossa sociedade.
Sentei-me a um canto e observei. Numa mesa, uma mulher escrevia e escrevia sem parar e, o que despertou o bichinho curioso que há em mim. Contudo, resisti em perguntar-lhe o que escrevia e continuei a observá-la.
Ao lado, estava um casal, na casa dos 45, 50 anos; estes discutiam literatura e falavam de uma revista “Orpheu” que um homem um pouco mais atrás lia sem levantar os olhos do papel. Questionei-me sobre o que trataria essa revista de que já tinha ouvido falar, mas nunca a li. Fiquei curioso.
Ao lado direito desse homem, estava outro senhor, de bigode e bem arranjado. Este escrevia, tal como a mulher que estava à minha frente. Pensei, “mas que raios, todos escrevem e lêem neste sítio?!” Mantive-me no meu lugar e volvi o olhar para a mesa do lado. Aí, encontrava-se uma mulher que incontroladamente fitava o homem sentado à sua frente com a mulher. Estes trocavam olhares sem que a mulher se apercebesse. Fiquei em choque.
Ao fundo, via dois homens sentados a fumar e a discutir. Economia e literatura eram os assuntos daquela mesa, até que um deles, exaltado, diz alto: ”Oh, Fernando!” O café parou, todos olharam para eles que rapidamente se desculparam.
Atrás de uma coluna, uma mulher espreitava. Tentando perceber para onde ela olhava, reparei que estava de olhos fitados na mesa dos dois homens que há pouco discutiam. Seria amante, mulher, curiosa?
Enfim, conclui que aquele sítio era um pouco estranho. As conversas eram sobre o mesmo, o passatempo era para todos o mesmo...
Falei com o meu professor e quando lhe descrevi o sítio ele riu-se e disse-me:
- Pois, esse café é um género de ponto de encontro entre todos os que estão ligados à arte e à literatura. Muito provavelmente esse Fernando que ouviste chamar era o Fernando Pessoa! Talvez o Almada Negreiro estivesse com ele ou até mesmo a sua namorada, a Ofélia Queiroz, quem sabe?
Não quis acreditar. Estive tão perto de todos os artistas mais revolucionários e conhecidos da época e contive a minha curiosidade. Não quis acreditar!


Mariana Carvalho; 12ºD
Helena Almeida

No outro dia de que já nem recordo a data, estive presente numa visita de estudo a Lisboa. De tarde, fomos ao Museu de Arte Moderna e visto que tinha de escolher uma obra e dizer o que sinto ao vê-la, escolhi uma da Helena Almeida. Porquê? Tal como eu disse quando a nossa guia questionou o que é a arte? A arte, actualmente, é ser diferente…
A Helena é diferente, vê a arte onde ela “não existe”, porque arte é tudo aquilo que nós queiramos que seja transformado em arte, temos é de ser artistas e saber imaginar. Bem, que confusa! A verdade é que nem todos conseguimos tal proeza. Helena Almeida consegue-a. Ora vejamos: uma sequência de fotografias em que aparece, primeiro, uma tela, logo a seguir uma pessoa (a própria artista) até chegar à altura em que a pessoa ultrapassa a tela! Mas isso é possível? Isto é arte? A verdade é que nunca ninguém se lembrou de o fazer. Se calhar tinham receio que não fosse considerado arte. Mas, talvez seja este mesmo o motivo pelo qual o que aqui se observa é arte.
Agora pergunto a mim mesmo, afinal o que é a arte?
Quando discutíamos este assunto, ao ver este quadro, estive quase para deitar-me no chão e dizer: isto é arte! Porque nenhum de vocês é capaz de o fazer.
Somos todos uns artistas, apenas não acreditamos naquilo que somos capazes.
Este texto é arte porque no meio de tantas palavras, não digo nada e isso nem todos conseguem... Sou também um artista, um imaginativo…

Tiago Raposo; 12º D

O Vazio


Helena Almeida, Tela Habitada 1977

Estranho... À pergunta lançada pela guia “isto é...” respondemos “arte!”.
Dei por mim a pensar que arte é esta, em que a pintora faz um auto-retrato transportando uma tela em branco?
Várias são as hipóteses:
- Endoideceu...
- Considera o seu trabalho vazio...
- Está perdida...
- Reflecte sobre o seu trabalho...
- Não tem nada em que pensar, ou então pensa no nada.
O nome da tela “Tela Habitada” pouco acrescentava aos meus pensamentos, mas a informação complementar ajudou.
Esta tela, da década de 70, integra as séries “pinturas e desenhos habitados” nas quais, a artista revela uma profunda meditação sobre si e o seu trabalho, nas quais representa e utiliza o seu próprio corpo numa sequência de imagens em que simula romper a tela e, ainda que aparentemente consiga, percebe-se que o seu objectivo não é alcançado surgindo, esta tela, como recomeço de um ciclo infindável.
E, por vezes, sinto-me assim... como a Helena Almeida se auto-retrata na sua arte... numa tela em branco, ainda por me definir.

Joana Perfeito; 12ºD

Modernismo

Amadeo Souza-Cardoso

O Modernismo, à sua nascença foi muito criticado, não só na pintura, mas também na literatura e noutras artes. Somente com o passar do tempo é que as pessoas aceitaram e perceberam aquilo que realmente era transmitido através desses quadros futuristas da arte moderna, cheios de imagens abstractas e formas inexistentes nos antigos trabalhos artísticos.
As pessoas estavam habituadas a ver quadros que relatavam a realidade, aquilo que os olhos alcançavam, não aquilo que a nova arte relatava: sentimentos ocultos, confusão, desequilíbrio e outras sensações.
O Modernismo, como todos nós sabemos, é quase o oposto daquilo que a arte clássica era. Na pintura, desde do aparecimento da máquina fotográfica, os pintores deixaram de mostrar a realidade devido ao motivo de uma simples máquina o fazer na perfeição.
Por isso, os pintores do Modernismo, para além de pintarem aquilo que os olhos vêm, começaram a pintar “sentimentos sobre tela”, pintar aquilo que imaginavam, aquilo que sentiam e até aquilo que sonhavam.
Como podemos ver, no quadro que está na imagem, para as pessoas dessa altura era impossível perceber o sentido do quadro, e como é de esperar, criticavam e achavam-no um absurdo. Mas com o passar do tempo, as pessoas começaram a tentar perceber aquilo que realmente o pintor queria pintar ou talvez transmitir.
O quadro não relata nada que se possa ver no dia-a-dia, na rua ou no café, porque é muito mais que uma simples imagem ou fotografia; é preciso saber interpretar e intelectualizar aquilo que é visto.
Este quadro à primeira vista, não parece ser mais do que uma tela cheia de cor e sem regularidade nenhuma, “falta as leis da natureza”. Mas, ao procurar no quadro, podemos ver pedaços de “realidade” fragmentados e numa ordem irregular, que pode ser interpretada como o momento vivido pelo autor, ou talvez como aquilo que ele tinha na cabeça numa fase em que estava a tentar intelectualizar a o seu dia-a-dia, aquilo que era a sua vida.
A interpretação varia de pessoa para pessoa, por isso, é muito difícil entender aquilo que realmente o pintor sentia e queria transmitir. Mas a arte é mesmo assim. Um desafio!

Catalin Vasile Cicau

Solidão


Amadeu de Souza-Cardoso
Este quadro, para mim, retrata um dos problemas que muitas pessoas, tanto em Portugal, como em todo o mundo têm vindo a enfrentar: a solidão em comum, indiferença, marginalidade! As imagens suscitam, em mim, sentimentos de tristeza, pena e revolta, uma vez que, como é sabido, existem muitos, neste país, que vivem na pobreza e nada podem fazer para sair dela. Estão na vida sem nada nem ninguém. Ao olhar este quando, o que me entristece é o não poder fazer nada para ajudar certas pessoas que de tanto precisam; ver que ninguém se esforça para diminuir este tipo de casos espalhados por todo o mundo, o que é realmente frustrante. Assim, foi a solidão a primeira palavra que me ocorreu, porque nota-se um vazio neste quadro, pelas cores que este apresenta e pela “situação” vivenciada por cada pessoa aqui esboçada: homens bêbados, tristes, solitários, abandonados, viciados, submissos, degradados.


Diogo Dias; 12º C

Confusão 2

Amadeo Souza-Cardoso
Amadeu de Souza-Cardoso é um pintor expressionista. Neste quadro, ele pretende transmitir as mais variadíssimas sensações a todos aqueles que quiserem apreciar a sua arte.
Sem dúvida alguma que este quadro é abstracto, no entanto e se observarmos com atenção podemos encontrar determinados objectos que nos suscitam curiosidade e que nos fazem interrogar por que razão é que estão ali, uma vez que têm origem completamente diferente. Porém, na minha opinião, a carta do naipe de paus e parte do corpo de uma mulher, nomeadamente os seios, a perna e a nádega direita, pretendem transmitir a ideia da prática de actividades ilícitas naquela época (1917), tais como o jogo e a prostituição.
As flores que estão pintadas ao centro do quadro, especialmente as rosas, são o símbolo do amor, da paixão, contrastando, assim com os restantes elementos já mencionados. O gafanhoto e a borboleta, discretamente pintados neste quadro, simbolizam a presença da natureza, juntamente com as flores. No canto superior direito, encontra-se parte de uma janela, dando-nos a sensação de que é possível ver o que está dentro do quadro. No entanto, no canto superior esquerdo, o pintor recorreu à expressão plástica, colando pedaços de espelho na própria tela. Através destes, podemos ver a nossa imagem, transmitindo-nos a ideia de que estamos dentro do quadro, no meio da confusão.
Assim, podemos concluir que os objectos que se encontram neste quadro têm um significado próprio, por mais obscenos que nos pareçam à primeira visita. A junção de diversos elementos de natureza diferente pode resultar numa desordem, mas o pintor Amadeu de Souza-Cardoso não os pintou por acaso. Deste modo, deixou que cada “leitor” retirasse da sua obra de arte a interpretação que bem entendesse.

Patrícia Pereira; 12ºC

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Buraco da Fechadura

Amadeo de Souza-Cardoso, Trou de la Serrure

O título do quadro é “Trou de la Serrure”, que significa “o buraco da fechadura”, fechadura essa que fechará a porta que nos leva até ao nosso intelecto. Ao espreitar pelo orifício, é possível ver uma explosão de ideias, conceitos, formas ou cores que constituem o nosso imaginário. O quadro expressa isso mesmo, o que está dentro e o que constitui a nossa mente.
É possível identificar certos elementos que pairam sob as linhas e as cores, como o jarro onde descansa uma rosa encarnada, o morango sobre fundo branco ou a quarta de água. No centro, encontramos uma figura que se destaca. Um instrumento musical que emite uma melodia tanto suave como agreste que é símbolo máximo da música: o violino. Uma das suas metades funde-se com os outros elementos da tela, desvanecendo-se em cores claras.
A música é uma forma de arte valiosa e que tem importante destaque na construção do ser humano. A música faz-nos pensar, faz-nos sonhar, faz-nos sorrir, faz-nos sentir. O brotar dos nossos sentimentos é desencadeado, sobretudo, pelas melodias que entram nos nossos ouvidos e que nos percorrem as veias sanguíneas, tal como o ar que respiramos. Assim, sugere este quadro.

Beatriz Madeira, 12ºC

Monet: Impressão Sol Nascente, 1872

O quadro pintado por Monet é tudo menos nítido: as figuras estão distorcidas, as formas baralham-se. Parece não haver uma linha que separe o real do imaginário. Pela incerteza no traçado, alguns afirmarão, então, que esta obra nada nos pode dizer sobre o que estava perante os olhos do nosso pintor.
Mas será que uma obra de arte, seja ela qual for, tem de nos revelar uma figura ou uma imagem real? A resposta que encontro quando olho para o quadro é um gigantesco não. Esta obra não nos apresenta quaisquer figuras ou imagens, definidas claramente, mas apela à minha imaginação: faz-me tentar visualizar o que estava na imaginação do poeta, leva-me a reflectir sobre o poder da cor, conduz-me a que me deixe levar pelo traçado do pintor.
A tranquilidade impressa no quadro é, para mim, indescritível; quando olho para este quadro, sinto-me numa esplanada virada para o mar em Veneza… ou será em Amesterdão? O importante não é o local, mas sim o sentimento. Quererá, quem me lê, juntar-se a mim? Ou será que a imagem criada na sua cabeça quando observa e, de seguida, fecha os olhos, não tem nada a ver com o que descrevi?
Na minha opinião, é nesta incerteza que reside a definição de arte; ninguém mais pode, para além do próprio artista, expor, numa simples tela, que seria branca antes de ser pintada, aquilo que o seu interior lhe transmite. Um momento de inspiração, um momento de descontracção… O facto é que Monet produziu algo maravilhoso, algo a admirar por todos.
Ser artista é para quem pode, é um dom. Se vem da mãe ou do pai? Se do Pai Divino ou da Mãe Natureza? A isso não sei responder, mas decerto que venha de onde vier, um quadro como este suscitou hoje uma reflexão, e de outras mais será merecedor certamente!

Francisco Almeida; 12º C

Quem?

Lourdes Castro 1930
Sombra Projectada de Christa Maar, 1968



Quem é quem? Não sei se é homem ou mulher, mas pela cor, faz lembrar o feminino. Não sei se tem cabelo comprido ou curto. Se é criança ou idosa. Não sei se gosta de música e de filmes. Ou se prefere jogar às cartas ou ao dominó. Apenas conheço os traços que delineiam o seu rosto, e parte do seu corpo. É o amor quem os reconhece! Quando é verdadeiro, não precisamos de ver a outra pessoa.Conhecemos os traços até ao mais ínfimo pormenor. É como se fosse um amor cego, onde não existem expressões.É uma perda de identidade, para com o outro! Talvez seja um retrato de alguém que pousa para o marido, a quem não, lhe interessasse as suas características físicas, apenas aquilo que existe até às linhas que delimitam a sua presença e, por isso, apenas mostrou que aquela pessoa estava ali, que existe. Ou talvez não. Pode ser meramente uma personagem que invadiu a mente do autor e que não lhe mostrasse realmente quem era. Pode ser uma personagem de um conto de fadas, um mero desconhecido ou, simplesmente, o esboço da perfeição, sem identidade. Tal como no quadro, o amor reconhece cada traço, que demonstra a presença da outra metade. Esteja esta longe ou perto, esses traços são processados no coração e reflectidos no cérebro, nunca deixando de o ser.


Patrícia Santos; 12º C
Composição surrealista, Cândido Costa Pinto, 1962

Este quadro captou, de imediato, a minha atenção. Ao início, não entendi bem porquê. Olhando com mais atenção, lembrou-me o mar, as algas, os corais… Dá-me a ideia de movimento, de vivacidade.
Mar, para mim, significa calma e, ao mesmo tempo, liberdade. Há dias em que está calmo, sem ondas, é dominado por um silêncio tão imenso como a sua extensão. Depois, há outros dias em que está violento, em que corre livre e as ondas marcam o ritmo da vida e o passar do tempo. Tal como o mar, também nós temos dias calmos e dias agitados, dias alegres e dias tristes. Isto é o que me sugerem as cores desta obra de arte; as mais claras lembram-me a leveza e a felicidade dos dias bons, as mais escuras lembram-me a tristeza, o peso e a carga negativa dos dias maus.
Como disse, mar é para mim sinónimo de liberdade. Mas sempre que buscamos a liberdade, existem barreiras e prisões que, de algum modo, nos são impostas. Nesta imagem, observo o que me parece ser um pedaço de rede e é essa rede que representa, na minha opinião, as privações a que estamos sujeitos (ou a que nos tentam sujeitar!) ao longo de toda a nossa vida.
A chave está em desfazer essas redes, fio a fio, até conseguirmos ser livres e ter o nosso próprio ritmo, sermos o nosso próprio mar.


Ana Lúcia Sobral; 12ºC

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Confusão

La bibliothèque en feu [A biblioteca em fogo], 1974
Maria Helena Vieira da Silva


Qual é a primeira ideia que me vem à cabeça quando me dizem para pensar na minha vida? Uma verdadeira confusão. É esta mesma ideia de caos total que me surge na mente quando olho para este quadro.
No entanto, se olharmos com atenção, os elementos do quadro começam a fazer sentido e é como se as peças se encaixassem: começamos a ver livros, prateleiras e rapidamente nos apercebemos de que se trata de uma estante “recheada” de livros. Tal como nas nossas vidas, esta estante está organizada por temas. Os romances estão do lado esquerdo, perto do coração, os contos e histórias de encantar ocupam a parte de cima da estante, na área do cérebro e os livros que tratam de histórias heróicas de outros tempos vão-se encaixando nos lugares restantes.
A meu ver, esta estante é uma metáfora da pessoa: a parte de cima, onde estão os contos, é o cérebro, associado à imaginação; o centro, representa o coração, lugar dos sentimentos e dos livros de romance; e, por fim, as filas de fora da estante simbolizam os nossos membros, partes do corpo humano sempre evidenciadas nos heróis principais nos relatos heróicos.
Tanto a estante acima representada, como as nossas vidas, aparentam ser repletas de confusões e mal-entendidos mas, ao escavarmos mais fundo, compreendemos que afinal está tudo no seu devido sítio, o sítio onde as guardamos. Pode parecer confuso para os outros, mas conseguimos encontrarmo-nos na nossa própria confusão.

Ana Laura, 12ºC, nº2